O Fukanzazengi — Promoção Universal do Zazen — foi o primeiro texto que Dogen Zenji escreveu após regressar da China em 1227. Tinha 27 anos. Nele expõe, com uma clareza e urgência incomparáveis, a essência do que aprendera com o Mestre Nyojo: que o Zazen não é um meio para atingir o despertar, mas a própria expressão do despertar.
É o texto fundador da escola Soto no Japão e um dos documentos mais importantes de toda a história do budismo. Cantado em cerimónias e dias de prática intensiva (sesshin).
Fukanzazengi
Sore shūshō no michi wa, amaraneku en-zu.
Nani ka shugyō wo mochii, nani ka shōshū wo mochii ya.
Shōhō wa kokoro to hitoshire,
Sarani no ga nen su beshi ya.
Kagami wa chiri wo hanare,
Izen kentō nari.
Ima tare ka sonore wo shinjiru ya.
Moshi shōhō no mae ni dete,
Ichi nichi mo mata ikaga sen ya.
Sareba ōyoso dōgen jōza wo shimesu ni wa,
Shizuka naru tokoro yō shi,
Inshoku setsu do nari.
Issai no jimu wo shashi,
Yorozu no koto wo yasumo.
Zen aku wo omowazu,
Ze hi wo kangezu.
Kokoro i-shi, i-nen wo tomete,
Butsu to naran koto wo hakaru koto nakare.
Zazen wa ichi ji ni arazu,
Gazen ni arazu.
Tsune ni zazenko ni iru ni wa,
Atsu musha wo shiku beshi.
Tanzan wa kore nakarazan koto wo yurusu.
Kossho ni wa kore nakaran koto wo yurusu.
Hitsuji ni suwareba,
Ryo-ashi wo ago no ue ni oku.
Hanka nite wa tada saho-ashi wo u-hiza no ue ni oku.
Koromo obi wo yuruyaka ni totonoete,
Tadashiku seisei su beshi.
Kore yori u-te wo u-ashi no ashi no ue ni oki,
Sa-te wo u-te no ue ni oku.
Ryō oyayubi no saki wo tagai ni atete,
Kore wo hokkaijōin to iu.
Tada shite za suru koto nashite,
Ikkan no i wo nasu.
Kuchi wa heite ha-oto wo sezu.
Me wa hiraku koto hachi-bu nari.
Kaku no gotoku chōku suredomo,
Midarashi. Shizuka naredomo nemukarazu.
Kore wa sono michi nari.
Furumai ni tsuite iu,
Kotsu toku su beshi,
Katachi no gotoku ni are.
Ze no gotoku kyū nen,
Hitsuzen to shite tokkai su beshi.
O Caminho é originalmente perfeito e penetra tudo. Como poderia depender da prática e do despertar? O veículo fundamental é livre e desimpedido — para quê empenhar-se em esforço concentrado? Sem dúvida, todo o universo está longe de qualquer pó ou sujidade. Quem poderia acreditar em meios para varrer e polir?
O Caminho não está separado deste lugar preciso; para quê procurá-lo aqui e ali? E contudo, se há a mais leve diferença, o Caminho está tão distante como o céu do chão.
Portanto, para praticar o Zazen que aqui se ensina: encontra um lugar tranquilo. Sê moderado na alimentação e no sono. Abandona todos os assuntos. Deixa descansar as dez mil coisas. Não penses no bem nem no mal. Não te preocupes com o certo e o errado.
Para as tuas sessões de Zazen, usa um zafu espesso. O lugar pode ser coberto ou ao ar livre. Senta-te na postura de lótus completo ou na postura de meio-lótus. Afrouxa as roupas e dispõe-nas em ordem. Assenta-te com dignidade e compostura.
A seguir, coloca a mão direita sobre o pé esquerdo e a mão esquerda sobre a palma da direita. Os polegares tocam-se levemente. Assenta-te erecto, sem inclinar para nenhum lado. Esta posição das mãos chama-se hokkaijōin.
Assenta-te firmemente e pensa o não-pensamento. Como pensas o não-pensamento? Para além do pensamento. Esta é a arte essencial do Zazen.
O Zazen de que falo não é meditação para aprender. É simplesmente a porta do Dharma de repouso e alegria. É a prática-realização da bodhi completamente revelada. Os koans nunca penetraram neste domínio. Não há nada a fazer além do Zazen.
Eihei Dōgen Zenji, 1227