O Ryumonji é inseparável dos mestres que o criaram e dirigem. Uma linhagem viva, enraizada na tradição Soto Zen.
Siddhartha Gautama — o Buda Shakyamuni, Shakamuni Butsu em japonês — é o fundador do Budismo e a fonte de toda a linhagem Zen. Nascido em Lumbini (actual Nepal) numa família nobre, renunciou à vida palaciana em busca da compreensão do sofrimento humano. Após anos de prática ascética e de meditação, atingiu o despertar sob a Árvore Bodhi em Bodh Gaya — experiência que transformou o modo como o ser humano pode entender a sua própria mente.
Ensinou durante cerca de 45 anos nas planícies do Ganges, transmitindo a compreensão do sofrimento, da sua origem e do caminho para a sua cessação. Mas o cerne do que o Zen transmite não se encontra nos sutras — encontra-se num momento silencioso: numa assembleia de monges, o Buda levantou uma flor. Ninguém compreendeu. Apenas Mahakashyapa sorriu. Esse sorriso foi a primeira transmissão directa, de mente a mente, fora das palavras e dos escritos — o coração do Zen.
Esta transmissão passou de patriarca em patriarca, da Índia à China com Bodhidharma, da China ao Japão com Dōgen, e do Japão à Europa com Deshimaru. O que praticamos no Ryumonji é, na sua essência, o mesmo despertar.
Bodhidharma — Bodaidaruma em japonês, ou simplesmente Daruma — é o monge budista que trouxe o Chan (Zen) da Índia para a China e o primeiro patriarca da linhagem. Considerado o 28.º patriarca após o próprio Buda Shakyamuni na transmissão directa, chegou à China durante as dinastias do Sul e do Norte, provavelmente no século V ou início do VI.
A sua chegada é marcada por um encontro célebre com o Imperador Wu de Liang, que lhe perguntou qual o mérito acumulado por ter mandado construir tantos templos e copiar sutras. Bodhidharma respondeu: "Nenhum mérito." O imperador, desconcertado, perguntou então qual a verdade sagrada mais elevada. Resposta: "Vazio imenso — nada de sagrado."
Retirou-se para o Mosteiro de Shaolin, onde praticou meditação voltado para a parede durante nove anos — o biguan, a contemplação da parede. É desta postura que nasce o Zazen tal como o praticamos: sentar de frente para a parede, imóvel, sem objectivo. A sua transmissão ao discípulo Huike — o Segundo Patriarca — inaugurou a linhagem ininterrupta que chega ao Ryumonji.
Huineng — Enō em japonês — é o Sexto Patriarca do Chan e a figura mais decisiva na história do Zen. Nascido pobre no sul da China, era analfabeto e vendia lenha para sustentar a mãe quando ouviu alguém recitar o Sutra do Diamante e experimentou o primeiro despertar. Foi ao mosteiro do Quinto Patriarca Hongren, onde trabalhou como moedor de arroz durante meses.
O episódio fundador do Chan: Hongren anunciou que transmitiria o manto a quem demonstrasse verdadeira compreensão. O monge chefe Shenxiu escreveu na parede: "O corpo é a árvore do despertar; a mente, um espelho brilhante. Limpa-o sem cessar, para que o pó não pouse." Huineng, que não sabia ler, pediu que lhe lessem o verso — e respondeu com outro: "O despertar não tem árvore; o espelho não tem suporte. Originalmente não existe nada — onde poderia pousar o pó?" Hongren reconheceu a realização e transmitiu-lhe o Dharma em segredo.
Os seus ensinamentos — recolhidos no único texto budista não-indiano a receber o nome de sutra, o Liuzu Tanjing (Sutra da Plataforma do Sexto Patriarca) — insistem no despertar súbito, na natureza búdica original, e na identidade entre meditação e sabedoria. Da sua linhagem nasceram todas as escolas do Zen que existem hoje, incluindo a escola Soto.
Dongshan Liangjie — Tōzan Ryōkai em japonês — é o fundador da escola Caodong (曹洞), cuja pronúncia japonesa deu o nome Soto ao Zen que praticamos. Monge da dinastia Tang, foi discípulo de Yunyan Tansheng e mais tarde de Guishan Lingyou, percorrendo a China em busca do ensinamento. Foi junto de Yunyan que recebeu a transmissão.
A sua iluminação ficou associada a um momento simples: ao atravessar um rio, viu o seu reflexo na água e compreendeu algo que nenhuma palavra podia esgotar. Desse momento nasceu um poema-koan. Ensinou as Cinco Categorias (goi, 五位) — um mapa da relação entre o absoluto e o relativo, o particular e o universal — que se tornaram a base filosófica do Soto Zen. Compôs o Hōkyō Zanmai (寶鏡三昧, Samadhi do Espelho de Jóia), ainda hoje recitado nos dojos Soto.
Com o seu discípulo Caoshan Benji, sistematizou o ensinamento numa escola coerente que se transmitiu durante quatro séculos até chegar ao Japão através de Dōgen. Sem Dongshan, não existe Soto Zen.
Tiantong Rujing — Tendō Nyojō em japonês — foi o mestre chinês que transmitiu o Dharma a Dōgen Zenji e, através dele, fundou a linhagem Soto Zen no Japão. Abade do templo de Tiantong (天童寺), na província de Zhejiang, era conhecido pela rigor e directidade do seu ensinamento — um mestre que não tolerava sonolência nem distracção, e que insistia na absoluta identidade entre Zazen e o próprio despertar.
Foi Rujing quem transmitiu a Dōgen o ensinamento central do Soto Zen: shinjin datsuraku — "abandono do corpo e da mente". Dōgen chegou ao templo de Tiantong em 1225, após uma longa busca. Numa madrugada de meditação, ao ouvir Rujing repreender um monge adormecido com as palavras "Praticar Zazen é abandonar o corpo e a mente — porque dormitas?", Dōgen experimentou o grande despertar. Rujing confirmou a sua realização e transmitiu-lhe a sucessão do Dharma.
Quando Dōgen regressou ao Japão em 1227, não trouxe sutras nem objectos sagrados. Como respondeu ao ser interrogado sobre o que havia trazido da China: "Voltei de mãos vazias. Apenas compreendi que os olhos são horizontais e o nariz vertical." Esta compreensão — directa, sem conceitos — é o legado de Rujing.
Dōgen Zenji é o fundador do Soto Zen no Japão e um dos pensadores mais profundos da história do Budismo. Nascido em Kyoto em 1200, viajou para a China em 1223 em busca do ensinamento autêntico. Foi no templo de Tiantong que encontrou o Mestre Rujing (Nyojo), sob cuja orientação realizou o despertar.
De regresso ao Japão, ensinou que o próprio Zazen — sentar completamente, sem objectivo — é a expressão do despertar. A esta prática chamou shikantaza: apenas sentar. Fundou o templo de Eiheiji em 1243, que permanece até hoje o centro da tradição Soto Zen.
A sua obra principal, o Shobogenzo (Tesouro do Olho da Lei Verdadeira), é considerada um dos textos filosóficos mais originais do Oriente. A linhagem do Ryumonji remonta directamente a Dogen, transmitida de mestre a discípulo ao longo de oito séculos.
Keizan Jōkin — conhecido pelo título póstumo de Taiso, o Grande Ancestral — é considerado o segundo fundador do Soto Zen no Japão. Se Dōgen estabeleceu a doutrina e a prática, foi Keizan que espalhou o Soto Zen por todo o país, tornando-o acessível não apenas aos monges mas às comunidades leigas e às mulheres praticantes.
Ordenado aos oito anos, foi discípulo na linha directa de Dōgen: Gien → Gikai → Keizan. Fundou o templo de Sōjiji (總持寺), que se tornou um dos dois mosteiros-sede do Soto Zen no Japão — a par com o Eiheiji de Dōgen. A sua obra principal, o Denkōroku (傳光錄, Registo da Transmissão da Luz), traça a transmissão de mente a mente desde o próprio Buda Shakyamuni até Dōgen, em 53 capítulos que são ainda hoje texto de referência da tradição.
O Soto Zen que chegou à Europa — através de Deshimaru, do Ryumonji e dos dojos da AZI — é inseparável do impulso que Keizan lhe deu. Dōgen e Keizan são venerados em conjunto em todos os templos Soto Zen do mundo.
Kōdō Sawaki — conhecido no Japão como Homeless Kōdō, o Kōdō sem tecto — foi um dos mestres Zen mais influentes do século XX e o professor que transmitiu o Dharma a Taïsen Deshimaru. Nascido em 1880 numa família muito pobre, tornou-se monge ainda jovem e dedicou toda a vida a ensinar o Zazen sem jamais aceitar um templo fixo como sede.
Recusando o modelo institutional do budismo japonês da época, viajou pelo país durante décadas, levando o Zazen directamente às pessoas — em prisões, universidades, fábricas, aldeias remotas. "O Zen não é algo que se aprende — é algo que se faz," dizia. Esta convicção radical na prática como único fundamento do caminho tornou-se o coração do ensinamento que Deshimaru trouxe para a Europa.
Foi professor de budismo na Universidade Komazawa e guiou inúmeros discípulos ao longo da vida. Quando sentiu a morte aproximar-se, disse a Deshimaru: "Vai transmitir o Zen ao Ocidente." Morreu em 1965, aos 85 anos. Deshimaru partiu para Paris dois anos depois.
O Mestre Taïsen Deshimaru foi a grande figura que trouxe o Budismo Zen para o Ocidente, particularmente para a Europa. Discípulo de Kodo Sawaki, mestre Zen e professor universitário muito respeitado no Japão, chegou a Paris em 1967 com uma missão clara.
Ele resumia o seu dever nestas palavras: "A semente do Zen foi plantada na Índia, a árvore cresceu na China, deu frutos no Japão — e agora os frutos chegam à Europa para serem comidos."
Nos anos seguintes percorreu o continente fundando dojos e formando dezenas de discípulos europeus. Quando faleceu em 1982, deixou uma comunidade de praticantes que continua a sua obra — entre eles, Raphaël Doko Triet, fundador do Ryumonji.
Nascido em Paris em 1950, é abade do templo de Seikyuji e o principal responsável pela divulgação do ensinamento na Península Ibérica. Foi um discípulo próximo do Mestre Taïsen Deshimaru, que o ordenou monge em 1973. Presidiu o dojo de Paris de 1990 a 1997 e a Associação Zen Internacional (AZI) de 2004 a 2013.
Em 1997, após receber a transmissão do Dharma (shiho) do Mestre Yuko Okamoto, fundou o Dojo Zen de Lisboa — o Ryumonji — estabelecendo o primeiro dojo Soto Zen permanente em Portugal. Dirigiu o dojo até 2005, deixando-o nas mãos do seu discípulo Yves Shoshin Crettaz.
Dirige retiros em vários países: França, Canadá, Suécia, Espanha e Portugal.
Responsável pelo Centro Zen de Lisboa e pelos vários grupos de zazen em Portugal, todos ligados à Associação Zen Internacional (AZI). Nascido na Suíça em 1946, é licenciado em Filosofia e exerceu várias profissões: professor, sindicalista e jornalista.
Foi ordenado monge Zen em 1988. Em 2013, recebeu a transmissão do Dharma (shiho) do seu mestre Raphaël Doko Triet, consolidando a linha de transmissão ininterrupta que liga o Ryumonji à linhagem de Deshimaru e, através dele, à tradição de Kodo Sawaki.
Casado, vive em Portugal desde 1997. É membro do Conselho de Administração da AZI e um dos responsáveis do templo Seikyuji.
"Sentar é suficiente. Não precisamos de compreender o Zen. Precisamos de o praticar."
O Soto Zen foi fundado na China pelo Mestre Dongshan Liangjie no século IX e levado ao Japão por Eihei Dogen no século XIII. Dogen, autor do Shobogenzo, estabeleceu a prática do Zazen como o coração do caminho: shikantaza, apenas sentar.
Discípulo do Mestre Kodo Sawaki, Taïsen Deshimaru foi o monge japonês que introduziu o Soto Zen na Europa ocidental. Chegou a Paris em 1967 com uma missão clara: a semente do Zen havia sido plantada na Índia, a árvore crescera na China, dera fruto no Japão — era tempo de os frutos chegarem à Europa.
Nos anos seguintes percorreu o continente fundando dojos, transmitindo o ensinamento com uma energia e acessibilidade raras, e formando dezenas de discípulos europeus. Quando faleceu em 1982, deixou uma comunidade europeia de praticantes que continuaram a sua obra — entre eles, Raphaël Doko Triet, fundador do Ryumonji.
O Ryumonji insere-se directamente nesta linhagem. A prática que acontece em Lisboa é a mesma que foi transmitida de Mestre a discípulo durante mais de mil anos.
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